quinta-feira, 29 de maio de 2014

Vespertinos verbetes

Vespertinos verbetes
A secura é tortura
É a ideia que não vem
O verbo que não conjuga
A falta “d’ocê”
E de mais ninguém
É quadrilha
Sextilha, septilha
Coisa que nem sei...
É a vontade que esquadrilha
POESIA!
O que me faz querer-te tão bem...

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Um chapéu para duas cabeças

Um chapéu para duas cabeças
“Sobre o que você escreve?”, perguntava-me Paulo. Eu, sem muito pensar, respondia “Nada, nada não”, e voltava a escrever. Aí, Paulo me dizia, “não se escreve sobre o nada porque o nada tem qualquer forma, indefinida. E para escrever você precisa de uma forma, mesmo que não querida”. Eu ficava pensando: “como pode ele saber se sou que estou escrevendo?”. O leitor há de concordar que o texto pode começar a esmo, um rabisco, a vontade de falar entre as linhas do papel, rabiscando uma música, um desenho, um carrossel. Mas é de quem escreve.
Guardo os textos e me levanto. Fico de canto, imaginando-me leitor, fingindo não saber a próxima letra, nem o próximo refrão. E a pergunta de Paulo me incomoda, mastiga os meus ouvidos. Mas tantos outros já me fizeram a mesma pergunta, por que eu parei para pensar só hoje? Justo hoje que eu tinha a tarde livre. Mas que audácia do Paulo, perguntar sem calcular o perigo, não para ele, mas para mim. Eu sei que ele quer resposta… E se eu não quiser… Melhor, não puder dar? Eu listo motivos (… já deixei de ser leitor), justifico, depois releio, rabisco… Não é isso. Argumento maldito. Nem tudo tem motivo, nem todo o movimento é permitido, nem todo o verso é raciocínio… A maioria é compulsão. Essa pergunta de Paulo ainda vai me deixar absorto, preso à questão. Da próxima vez não permito, nem a ele e nem a mim.
Por que não me perguntou sobre a existência, a morte ou a solidão? Citaria frases de impacto, uma porção… Fingiria ser o autor, declamando no púlpito da verberação, mostrando a ele que perguntas (concordo, nem todas) cansam demais e quebram a criação…
         Eu, tão certo, escrevendo meus verbetes… aí vem o Paulo, indigesto, acocorar o que eu escrevi, acerbar e depois partir… foi isso o que ele fez. Deveria castigá-lo, não deixa-lo mais ler, nada, nada mais do que eu escrevo. Aí ele ia ver como é difícil explicar. A palavra é miudeza, mas é grande na frase, pedaço, parte, parte… Nada mais é devaneio. Está no papel, não nas ideias, está em folhas soltas, não nas dobras do meu travesseiro.
          Incomodado já estou, e isso não vai mudar. Eu fico pensando o que fazer, qual resposta dar? Não para o Paulo, mas para mim, sobre esse negócio de criar… “Do que eu escrevo?”. Posso escrever sobre hoje, talvez o amanhã, eu sobre você, você sobre você… quem sabe? Eu encontro um papel em branco e me ponho a escrever… Aí vem um infeliz e pergunta “do que está a escrever?”. Chapéu para duas cabeças… Isso é que é… Meus textos escondem meus olhos, revelados nos verbos, na ausência do espaço, exata melodia… Encontro os olhos de quem quer ler… Escrevo sobre o que vejo… Leitor incapaz de entender… Não me pergunte quais os motivos… o motivo é que alguém vai ler… Meus textos não são meus…

terça-feira, 29 de abril de 2014

Morada do poeta

Morada do poeta
Eu fiz a minha casinha num sopé
Na barranca do rio
E veio o barqueiro
Levou
E deixou um vazio
Fez moda
Tocou e disse que era dele
E que caboclo nenhum
Pode reclamar
Porque as palavras são como peixinhos
E a gente é a corredeira
Que segue o rumo
E só faz recitar

Então me fiz de rogado
Guardei a vara e o puçá
Mas quem escreve
Encharca os pés no alagado
Nada em rios bravios e calmos
Vive a reconstruir
Muitas casinhas na barranca
Nas curvas de um rio
Nas muitas corredeiras
E percebe que difícil mesmo
É padecer vazio... 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Bercinho no quarto

Bercinho no quarto
Se o tempo é sapiência
E quem explica as coisas do mundo é a ciência
Todos nós somos tubos de ensaio
A desfilar ponteiros e vivências
Diante da explosiva necessidade
De que a nossa química aconteça

É que falta a fé nos homens
Medo do bicho-papão e do lobisomem
Saber das coisas desse planeta
Pelos olhos das crianças
Que carregam os nossos sobrenomes...

Lencinhos molhados

Lencinhos molhados
Deus
Escreva em mim
Faz-me ser papel
Diz da minha miudeza
E que a minha avó Virgínia
Olha-me lá do Céu

Pai
Dê-me um abraço
Quero seus braços
Ser maior com você
Eu carrego os seus traços
Na experiência infindável de crescer
Por entre os muros e as ruas
Palavras e retratos
Fazer e refazer

Tempo
Faz-me não ser tão quarto
Minhas angústias e malgrados
Quero ser nuvem
Em um céu azul lindo
Troco todas as lágrimas
Por um único
E sincero sorriso

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Juliana

Juliana
Casinha de boneca
E se virar festa
Eu viro balão colorido
É tão lindo
A cor dos olhos seus
Meu maravilhoso infinito
Constelação na qual eu singro
E resido
Meu bem-estar
Juliana!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Globos oculares ao contrário

Globos oculares ao contrário
Não explico as coisas do mundo
Mas as coisas do mundo moram em mim
Não sou a resposta do que eu procuro
Mas a resposta está dentro de mim
Não sou o tempero dos dias
Mas ajudo a temperar o acordar das manhãs
Não adoeço sozinho
Há mais de mim em um divã

Muito mais...