sexta-feira, 23 de junho de 2017

Nós para gente

Nós para gente
Não escreverás carta alguma
Nem se lembrará de quais são os números
Nada que possa indicar,
mesmo que por um segundo
O desenho das suas mãos

Não são juras
Não é isso!
É que, desnaturado e absoluto,
Olvidaras o que é o perdão

De cá e de lá
Tanto quanto mudo
E, se muito foi,
Pouco terá sobrado, então
Como a espécie de um fio curto
Que liga nada
A nenhuma estação

Do que serves,
pobre reduto
Reduzido até o chão?
Deduzo eu que, na vida,
A gente é risco curto
Como para a frase do mundo
Um travessão...

sábado, 3 de junho de 2017

Logo mais...

Logo mais...
Quando velhinho eu ficar
Velhinho o meu ser
Garanto que continuarei a brincar
Mesmo que o meu corpo
Já não mais acompanhe o querer

Da pele enrugada
Das porções de "ites"
Das feições cansadas
Ainda serei conduite
Da palavra que chega
Do verso que arrasta
Guardando, por certo
Uma certa graça

Olhe bem essa carcaça
Menino de mim
O tempo, é fato,
arregaça!
Mas alma continua novinha sim...

...Sou menino até o fim!

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Inspiração?

Inspiração?
Nasceste em pecado
Concebida na escuridão
E tomaste conta de mim
Fizeste-me de sua mão
O que queres, ideia inaudita
Que eu seja solidão?
Quer de mim um pedaço do que sou?
Inspiração?

Eu me digladio entre as sílabas
Sou profano como um palavrão
Sagrado como a rima
Ideia sem exclamação
Sou ponto final e linha
Ideia escrita
Inspiração?

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Pente, cabelo, mãos

Pente, cabelo, mãos
Ao trançar os seus cabelos
Com os dedos das minhas mãos
Fizeste de mim o seu curvejo
A desandar em doida paixão
Eu sou mesmo brejeiro
Tomado de vontade e gastura
E nessa gostosura
De ser pente seu
Confesso certa fartura
Que no meu coração
Você promoveu
Fizeste de mim parte adornada
Das tranças dos cabelos teus
E os dedos das minhas mãos
A parte mais amada
Do corpo meu...

terça-feira, 16 de maio de 2017

Avós-meninas-bailarinas

Avós-meninas-bailarinas...
Penso que as minhas avós, logo que no Céu foram morar, sem muitas delongas e devaneios, devem ter tratado de perguntar:
"E os meus? Onde estão? Eu os quero reencontrar..."
E pegaram nas mãos do tempo que não se mede. E perguntaram sobre o Pai Celestial. Dimensionaram o que de cima se mostra pequeno, mas é gigante! Surreal! Quiseram voltar?
E se bem conheço a avó Virgínia, e o seu cheiro de rosas, sua pele de menina, se bem a conheço, ela pediu guarida nos braços do Pai. E pediu que a vida transbordasse e fosse mais. E que, para aqueles que ela orou, para os nomes que a nossa cultura ensinou, para esses, houvesse a possibilidade dela perguntar coisas que eu, menino, na barra da sua saia, perguntei, e ela não soube explicar. Eis aí a questão mais angustiante:
"A vida termina com a morte ou só se faz aumentar?"
E a avó Sunta, na reunião de árvores e frutos, no rancho da eternidade, buscou morada para os dias sem dimensão. E, se bem a conheço, fez da resposta, um sorriso. Da alegria, perdão! E hasteou, entre as nuvens do infinito, uma bandeira, a bandeira do Timão. E perguntou, com o desejo mais sublime e vívido
"E os meus filhos, netos e bisnetos? Como ficarão?"
Eu escrevo cartas para o infinito. Não espero resposta. Deus me deu mãos sem juízo. Canetas tortas. É um devaneio tudo isso. Haverei de ir um dia também.
Hoje o dia está tão bonito.
"Sunta e Gina, vocês estão bem?"

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Diário de Classe

Diário de Classe
Dos pequenos desatinos
E dos meninos a me acompanhar
Sigo me sujando
Colorindo!
Tipo azul giz menino
A desenhar

Dos sinais pelo caminho
Desses que só tocam na escola
Vou também colorindo
Para encontrar tempo e memória
E ir rimando
Tipo branco giz encanto
Foram tantos

E quase toda a caixa
Foi parar nos bolsos do meu jaleco
Num verde giz bonito
Pintando do chão ao teto

Sai de mim, então
Me refiz quadro, mesa, ventilador
Agora,
todo o espaço sou eu
Graças ao caderno desbravador

Ah, rosa giz flor!
Plantastes em mim outrora
Nas mãos lábeis de um professor
Que bendita será a seara
Em um encontrar comigo
Ainda menino
A desbravar todas as salas
Ser também semeador...



terça-feira, 9 de maio de 2017

CID: DESCONHECIDO

CID: DESCONHECIDO
Não sou verbo ódio
Acredite,
não conjugo o verbo rancor
Sou mesmo é tempestade e névoa
Dissabor!

Não sou grito
Me falta voz para dizer
Sou escrito
Em um papel,
que se esconde para ninguém ler

Não me tome como um cinto
Na calça que você insiste em tirar
Sou as agruras de um risco
Imaginário de mim mesmo
Torcendo para deixar de ser nada